Ensino Delta Empresa

A distância entre ensino e indústria é um tema real que merece atenção constante por parte da nossa sociedade. Assistimos recentemente no nosso país a um ajustamento forçado, mas necessário, do número de vagas do ensino superior em relação às necessidades empresariais do país. Neste ajustamento a área de tecnologia terá sido das menos afetadas, no entanto esse facto não garante que os recém licenciados venham preparados para aquilo que são as reais necessidades das empresas.

Antes de mais, temos de ter em atenção que o objetivo do ensino superior não é, nem deve ser, totalmente alinhado com as necessidades das empresas. A razão pelo qual faço esta afirmação prende-se com o facto de que se os recém licenciados souberem apenas fazer o que as empresas necessitam, então terão sido privados de um número considerável de exposições a diferentes formas de pensar, de resolver problemas, de diferentes tecnologias e inúmeros desafios. Seriam como Chaplin no filme “Tempos Modernos”, apenas saberiam “apertar porcas” e dificilmente poderiam pensar ou executar de forma diferente, limitando assim a evolução e a inovação. Ou seja, o ensino superior deve ter o seus próprios objetivos e seguir o seu próprio caminho de forma a que a investigação, experimentação e inovação não sejam limitadas pelo pensamento único de “formar pessoas para as empresas”.

Ensino Delta Empresa: tempos modernos

Filme: Tempos Modernos. United Artists.

No entanto, e porque um dos objetivos do ensino superior é garantir aos seus recém licenciados um mínimo de conhecimento e competências que lhes permita ingressar no mercado de trabalho de forma produtiva, torna-se imprescindível que os currículos abordem tópicos que farão parte da realidade profissional dos seus formandos.

Na outra ponta, consumidora dos recém formados, estão as organizações, que, infelizmente, não raras vezes recrutam recém licenciados que consideram “mal preparados”. Esta situação força as empresas a investir algum tempo na formação dos seus novos profissionais até que estes comecem efetivamente a serem produtivos. Esta realidade ficou mais exposta aquando da entrada de Bolonha, onde algumas empresas optaram por deixar de recrutar recém licenciados e passaram apenas a recrutar mestrados.

Esta queixa por parte das empresas não é uma falha do ensino, é apenas uma consequência dos conhecimentos académicos e do seu alinhamento, ou não, com as necessidades empresariais aquando do recrutamento. Não nos podemos esquecer que todos os ensinamentos académicos devem ser vistos como ferramentas úteis para todo o percurso profissional das pessoas e que se tornam mais valias para as organizações. Ou seja, não podemos ver este desalinhamento inicial como um problema dado que o conhecimento e mais valia dos recém licenciados não se esgota na contratação inicial. Como costumo dizer, isto não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona.

Como qualquer ponto de equilíbrio, este entre os objetivos académicos e as necessidades das empresas não é fácil de descobrir, requerendo uma análise constante e um esforço de aproximação entre universidades e empresas. Este esforço tem vindo a ser feito ao longo dos últimos anos, e atualmente temos algumas estratégias inovadoras e interessantes, como programas de estágio especiais logo após o primeiro ano para alunos com médias superiores a 15 valores.

Este tipo de abordagem é extremamente interessante, pois dá aos alunos uma motivação extra e uma aprendizagem mais diversificada e valiosa, ao mesmo tempo que permite às empresas conhecer e criar relações com os melhores alunos para uma potencial oferta de primeiro emprego.

Este é, claramente, um tópico de discussão para o qual não há respostas certas, pelo que a procura do ponto de equilíbrio deverá ser constante e a criação de estratégias para incluir componentes que preparem melhor os alunos para a vida profissional deverá ser uma prioridade.

Publicado na edição 46 (PDF) da Revista PROGRAMAR.