High Tech Fashion

Roupa. Muitos de vós podem pensar que não tem qualquer relevância, é algo que se veste, que na sua forma utilitária serve para proteger a nossa pele. Roupa é apenas roupa, não pode ter esse nível de interesse, a menos que seja para nos tornar, de certa forma, mais atraentes.

Escrever um artigo sobre moda high tech numa revista em que o público alvo é amante de tecnologia, talvez seja algo arriscado. Mas vamos imaginar que baseamos a nossa escolha de roupa num algoritmo simples, daqueles que aprendemos nas primeiras disciplinas de programação.

Se saímos à rua:
           à Roupa_de_Rua == TRUE && Roupa_de_Casa==FALSE;

Se ficamos em casa:
           à Roupa_de_Rua == FALSE && Roupa_de_Casa==TRUE;

Apostaria sem reservas que muitos dos leitores se viram neste pseudo-código.

Mas e se, a roupa se mexesse? Ou se tivesse vontade própria e mudasse, digamos, com apenas um botão? Loucura, certo? Não, já não! Um pouco de inteligência artificial talvez.

A era da tecnologia veio sem dúvida para ficar. Podemos ver tecnologia em tudo o que fazemos hoje em dia, convivemos com ela e provavelmente sem ela o mundo já não saberia como reagir a muitas situações. Exemplos bem conhecidos são os smartwatchs que se tornaram gadgets bastante apetecíveis. Mas voltemos caro leitor, ao assunto principal, a roupa. Desde há milénios que os costureiros, os designers e todo o tipo de engenheiros tentam que esta roupa que nos acompanha diariamente tenha algo de diferente, algo que nos distanciei uns dos outros e nos adicione personalidade. Atualmente, o que precisamos é mesmo de uma ligação à internet e de algo que interaja connosco, algo que nos faça sentir “na nossa pele”. Há alguns meses, em conversa com uma simpática rapariga informática, ela perguntava-me “achas que tens algum conselho de moda para mim? Às vezes sei que me devia vestir melhor, mas… Gostava de algo que se parecesse comigo, eu gosto de tecnologia”. Hoje tenho a resposta para ti.

Comecemos pelo mais básico, Hussein Chalayan. Decorria o ano de 2000 quando este designer de moda turco teve a ideia mais brilhante da sua carreira, o que lhe valeu também variados prémios, e claro, um estupendo reconhecimento mundial. Chalayan desenvolveu em conjunto com a B Consultants, uma empresa londrina de engenheiros arquitetónicos, peças de vestuário que consistiam unicamente em telas brancas. A partir destas telas e da tecnologia associada a elas, Chalayan e a B Consultants conseguiram projetar aquilo que é hoje o primeiro vestido com imagens. Esta peça, de fundo branco, foi criada a partir de um programa de computador que permitiu aos designers elaborar uma gama de perspetivas tridimensionais, e então depois estas perspetivas foram transferidas para seda e tecidos de algodão (tecidos que são fortes condutores de energia), usando depois um processo de impressão mecanizada. Então, já te imaginaste agora a ir para o trabalho, carregares num simples botão e a tua roupa projetar imagens? Penso que seria interessante, mas talvez ainda um pouco arcaico. Ainda proveniente das mãos deste designer, surgem vários vestidos que podem ser acionados por controlo remoto. A partir da sua colaboração com estes engenheiros arquitetónicos, Chalayan desenvolve por fim vestidos que podem mudar a sua forma. Resumidamente, imaginando que vamos trabalhar com um vestido durante o dia e que durante a noite temos um evento importante ao qual temos de ir, é simples. O vestido está projetado para alterar a sua forma consoante a situação em que é necessário, o que lhe confere uma versatilidade única. Mudar de vestido é agora tão simples como clicar num botão.

Ainda um assunto pouco interessante? Um pouco menos básico, e na minha opinião, um trabalho de excelência, STUDIO XO. Vestidos voadores? O STUDIO XO consegue. Esta marca é composta pela designer Nancy Tilbury, diretora criativa da SXO, e por Benjamin Sales, diretor tecnológico da SXO. Situado em Londres, este estúdio leva a moda mais além. Estes criativos não pensam apenas no funcional ou no estético que de facto deve existir na roupa, mas pensam sim na roupa como uma segunda camada de pele – os seus estudos são maioritariamente focados no que a roupa deve servir, ao ser humano, mas também à tecnologia. Ao logo dos anos foram criando vários tipos de materiais e até minúsculos filamentos e partículas que desenham a roupa no nosso corpo, dando-nos a sensação de liberdade que por vezes tanto queremos que aquelas calças nos possam dar. Mas, calças? Não, isso é algo que não existe no dicionário da STUDIO XO. A primeira peça com impacto que Nancy criou, em conjunto com a TechHaus, foi um vestido chamado “Anemone 2.0”, um vestido branco impresso em impressora 3D, totalmente em forma de bolha, mas o que lhe conferiu o seu sucesso, foi ser um dos maiores vestidos até à atualidade impressos em 3D, as maiores impressoras 3D do mundo. A criatividade da STUDIO XO continuou em larga escala, apresentando-nos depois a “Bubelle” – o vestido que muda de cor consoante o humor de quem o emprega. Mais interessante? O vestido tem uma forma redonda, também sido este impresso. E como se junta a tecnologia de ponta a isto? Benjamin Males é o criativo de serviço nesse setor – o que Nancy desenha, Benjamin consegue dar vida, o que faz desta parceria uma das mais ricas em todo o mundo da moda. Todos estes híbridos não passaram despercebidos aos olhos da rainha do excêntrico, Lady Gaga. Sendo a TechHaus uma divisão técnica da tão aclamada House of Gaga, e em conjunto com a STUDIO XO, foi criado especialmente para Lady Gaga um vestido que voa – Volantis. Este vestido, feito em fibra de carbono e movido por seis grandes tubos de baterias, sendo todo ele ecológico (ao estilo do tão conhecido drone voador) – e é aqui que os detalhes se tornam fundamentais, pois se o vestido não fosse construído em fibra de carbono, nunca levantaria do chão. Admitamos algo que esta equipa tem de maravilhoso é um extremo conhecimento técnico. Ainda assim, e se estiveres na rua e por acaso alguém decidir que te vai atacar?

Também existe uma resposta para isso! Devo dizer que sempre adorei o filme “Robocop”, mas a ideia de realmente trazer o seu equipamento vestido, nem sempre será a mais indicada para um dia de trabalho. Mas, e se existisse um vestido que é de facto um robot, mas com uma bonita aparência, e que alem disso, pode proteger-nos? Foi exatamente nisto que a designer Anouk Wipprecht pensou em conjunto com a Intel. Sim, a Intel faz roupa. “Robotic Spider Dress Powered By Intel Smart Wearable Technology”, é assim que devemos procurar esta magnífica criação. Esta peça foi desenvolvida pela designer Anouk em conjunto com o arquiteto Philip H. Wilck (Estúdio Palermo) e com o grupo New Devices da Intel. Sim, da Intel. Eis uma palavra que os informáticos e entusiastas da tecnologia conhecem bem. A Intel aliou-se a este projecto, e o vestido é “dono” de um módulo Intel Edison, o que permitiu avançar o projecto para uma versão mais madura, assim como um melhor apuramento a nível da mecatrônica e extra-sensorial. O objetivo principal era fundir a moda com a tecnologia e foi conseguido! – um vestido totalmente impresso em impressora 3D, adornado com um colar de pernas de aranha robóticas e que consegue ler pensamentos. É algo que provoca no ser humano um certo desdém, algo que consiga saber exatamente os seus pensamentos, mas neste caso, torna-se uma peça aliada à sobrevivência. O Robotic Spider atua como uma interface entre o corpo humano e o mundo ao seu redor – é composto por membros animatrónicos, usando sinais biométricos sem fios e as suas pernas movem-se através de sensores tecnológicos, o que lhe permite ser autónomo e aos mesmo tempo adaptável às emoções e desejos do seu portador. Este vestido é capaz de identificar 12 estados de comportamento humano, o que o faz ser agressivo ou sensível. Digamos que estamos numa festa e somos abordadas por alguém que não nos inspira confiança – imediatamente o Robotic Spider processa isso e movimenta o seu colar de pernas num sistema de proteger o seu “hóspede”. O mesmo acontece quando temos sensação de conforto – quando queremos dançar ou abraçar uma pessoa que nos é querida, automaticamente o vestido desativa os mecanismos de defesa e deixa que a outra pessoa esteja perto de nós. A moda aliada a nós, a algo tão sensível como a nossa mente.